Pioneira na indústria alimentícia brasileira a entrar nesse mercado,
a Sadia sofreu um forte revés no ano passado, quando o Conselho
Executivo da ONU - órgão que rege o mercado de carbono - alterou a
metodologia aplicada para a mensuração de gases das granjas de suínos e
puxou o freio de muitos desenvolvedores de projetos. "Passamos 2007
refazendo projetos. A mudança atrasou em um ano a entrega dos nossos
créditos", diz o executivo, em entrevista ao Valor. "O custo de
investimento dobrou e o potencial de emissão de gases caiu pela
metade".
Agora, a Sadia tem um "estoque" de pouco mais de 800 mil toneladas
de CO2 que poderá desovar em 2009. A maior parte desses créditos foram
vendidos em 2006, no mercado futuro, ao European Carbon Fund (ECF), um
dos maiores compradores de crédito de carbono do mundo ao lado do
Japão. Até 2012, a empresa deverá ter emitido um total de 2,5 milhões
de toneladas. O retorno previsto é de R$ 75 milhões a R$ 80 milhões.
Para levar adiante o programa, a Sadia contou com um financiamento
do BNDES, já desembolsado, de R$ 60,5 milhões. Recentemente, obteve
aprovação de um segundo financiamento do banco, de R$ 30,5 milhões,
destinado ao projeto de carbono de sua maior unidade agroindustrial,
localizada em Lucas do Rio Verde (MT). "Começaremos a pagar o
financiamento no ano que vem, então temos que começar a vender os
créditos", diz Ferreira. Além disso, a Sadia estuda a viabilidade
técnica para iniciar a geração de energia a partir dos dejetos dos
animais. "Queremos uma cooperação com empresas de energia. Já estamos
mapeando esse mercado", afirma o executivo. "A idéia é no fim do ano
que vem já começar a gerar energia para os produtores". Os projetos de
carbono estão em fase de validação e a expectativa é que até o fim do
ano sejam registrados na ONU. Dos 3.247 produtores integrados da Sadia,
1.065 estão associados ao programa, representando 1.103 propriedades.
A comercialização de créditos de carbono na suinocultura é um nicho
importante para países como Brasil, onde o rebanho é grande. Grosso
modo, as granjas destinam os dejetos animais a lagoas cobertas onde o
metano, o principal gás emitido, é canalizado e queimado,
transformando-se em CO2, um gás menos nocivo ao ambiente. Cada tonelada
de CO2 equivale a um crédito de carbono.
"Com o ajuste na metodologia, a forma de cálculo da redução das
emissões tornou-se mais complexa e criteriosa", diz Paloma Cavalcanti,
coordenadora do programa Suinocultura Sustentável Sadia. Isso teve dois
impactos: a redução de quase 40% das emissões (0,5 tonelada de CO2 por
suíno em terminação/ano) e investimentos maiores. A burocracia no
processo de registro dos créditos no Conselho Executivo, porém, está
levando a Sadia a voltar-se também ao mercado voluntário de carbono,
nos EUA. "Vamos fazer o inventário para saber o volume exato de
créditos que teríamos", diz Ferreira.
Fonte: Valor Econômico