Cerca de R$ 20 bilhões de empréstimos rurais têm risco da União e se
enquadram nessa situação. Em pelo menos R$ 5,35 bilhões desses
empréstimos, os devedores estão inadimplentes e podem ter o débito
inscrito na Dívida Ativa. A maior parte é dívida de grandes
agricultores e cooperativas agrícolas, que fizeram operações de
financiamento acima de R$ 500 mil.
A inscrição de operações rurais na Dívida Ativa começou a ser feita
em 2006 e se tornou uma importante fonte de pressão do governo para os
devedores colocarem as contas em dia. Quando um deles deixa de pagar
uma parcela do empréstimo - com exceção dos enquadrados no Programa
Especial de Saneamento de Ativos (Pesa) - todo o saldo devedor é
inscrito na dívida ativa. E sobre esse saldo é cobrada uma multa de
20%, o que faz elevar substancialmente o endividamento do produtor.
Além disso, o valor da dívida inscrita é corrigido pela variação da
taxa Selic mais 1%. No caso do Pesa, apenas o valor da prestação não
quitada é inscrito na dívida. Aqueles devedores com débitos inscritos
na dívida ativa são incluídos na lista do Cadastro Informativo de
Créditos Não Quitados do Setor Público (Cadin) e ficam sujeitos a
restrições de acesso a incentivos fiscais e financeiros e operações de
crédito com recursos federais. "É uma penalização para quem deixou de
honrar seus compromissos. Quem não pagou precisa ser tratado de forma
diferente de quem pagou", afirma uma fonte do governo.
A troca da taxa Selic (hoje em 13%) pela TJLP (atualmente em 6,25%)
feita pelos deputados no projeto de conversão da MP 432 vale justamente
para a renegociação das dívidas inscritas na Dívida Ativa. A MP
permitiu o parcelamento desses débitos em cinco anos, prazo estendido
para 10 anos na votação do projeto de conversão depois de um acordo com
o governo. Além de descontos entre 33% a 65% do saldo devedor - essa
vantagem beneficia mais quem deve menos -, o projeto acaba com a multa
de 20%.
Até agora, a PGFN já inscreveu na Dívida Ativa 31 mil operações de
crédito rural, no total de R$ 7,1 bilhões. Mas desde o fim de 2007, as
inscrições estão suspensas devido ao processo de negociação da MP. A
troca de indexador que tornou, na maioria dos casos, mais vantajoso
renegociar o débito que já tiver inscrito em dívida ativa. Muitos
agricultores poderão preferir a inscrição na Dívida Ativa e a posterior
renegociação em 10 anos.
A inscrição de débitos rurais na Dívida Ativa tem sido questionada
na Justiça. Alguns juízes de primeira instância têm dado decisões
anulando a inclusão de produtores rurais inscritos no CADIN e sustando
as execuções fiscais. O deputado Valdir Collato (PMDB-SC) também já
entrou com pedido no Tribunal de Contas da União (TCU) pedindo a
revisão e recalculo das dívidas agrícolas que passaram do BB para o
Tesouro Nacional. Foi Collato que apresentou a emenda à MP que permitiu
a troca de indexador."Um produtor financiou uma máquina. Não pagou e
acabou virando imposto", disse Collato, numa referência ao fato de que
a Dívida Ativa da União é formada por créditos tributários que não
foram pagos pelos contribuintes.
Fonte: Folha de Londrina