Depois
de dois anos de espera, pesquisas, trâmites legais e impasses
judiciais, os agricultores gaúchos plantaram pela primeira vez sementes
de milho transgênico. O engenheiro agrônomo e presidente da Associação
Amigos da Terra, Almir Rebelo de Oliveira, é um deles. Parte de sua
propriedade, que fica em Tupanciterã, região central do estado, já foi
semeada com a versão transgênica da semente.
Finda a querela judicial, o Brasil finalmente vai colher a primeira
safra de milho genéticamente modificado (GM), e isso deve acontecer
entre os meses de janeiro e fevereiro do próximo ano. Foi só a chuva
dar uma trégua no sul do País para os produtores gaúchos plantarem em
suas propriedades a primeira leva de milho Bt. Ele carrega a bactéria
bacillus thuringiensis, nociva a certos tipos de insetos."Há dez anos
nós combatemos muitos invasores com a soja transgênica, agora chegou a
hora do milho ficar livre pelo menos da lagarta", comemora Almir
Rebelo. No dia 2, o agrocultor semeou suas lavouras com milho Bt
desenvolvida pela multinacional americana Monsanto.
De acordo com estimativa da Céleres, uma área que pode variar entre
4,7% e 6,3% do território nacional deve ser semeada com o grão
modificado. Traduzindo em hectares, de um total de 9,574 milhões, entre
461 e 615 mil vão ser cultivados com sementes transgênicas, a maior
parte no Rio Grande do Sul. Mas outros estados brsileiros, como Santa
Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Bahia também aderiram à
biotecnologia, esclarece o diretor da Céleres, Leonardo Sologuren. No
oeste da Bahia, as lavouras começam a ganhar vida entre os meses de
setembro e outubro.
O entusiasta e precursor do cultivo de transgênicos Almir Rebelo usa
a mão para enumerar as vantagens da semente desenvolvida a partir de
biotecnologia. Além de poupar o meio ambiente e os trabalhadores do
contato com doses cavalares de agrotóxico, o milho Bt, segundo ele,
evita a ação das lagartas na ponta da espiga. "Este tipo de ataque
deixa o milho vulnerável à chuva, o que provoca o apodrecimento da
espiga viabilizando o aparecimento de doenças fungicidas", explica o
produtor e engenheiro. São elas as responsáveis por boa parte da
incidência de alguns tipos de câncer no frango e no porco alimentado
com o grão contaminado, e que por vezes podem chegar a atingir o ser
humano.
As vantagens enumeradas acima por Almir tem um custo. A semente
geneticamente modificada pode superar em pelo menos 30% o valor da
convencional. 20 quilos do milho Bt deve chegar a R$ 280. A compensação
financeira é feita mais tarde na economia nas doses de
agrotóxicos."Como produtor é claro que eu gostaria de desembolsar um
valor menor pela semente, mas é o preço que se paga por uma lavoura
livre de lagartas e por um solo mais saudável", pondera Almir Rebelo. A
saca de milho que ele e os outros produtores de milho brasileiro
oferece ao mercado hoje por R$ 23, pode ter uma pequena valorização no
início do próximo ano e chegar aos R$ 25, independente de ser milho
transgênico.
A aceitação do futuro milho brasileiro no mercado externo não é
motivo de preocupação para os produtores do grão. Segundo o presidente
da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), Odacir
Klein, as portas do mercado europeu e dos outros mercados já foram
abertas pela Argentina e pelos EUA - líderes na produção e exportação
do grão, "o que pode acontecer é um tipo de premiação por parte do
mercado internacional para os produtores do milho tradicional",
vislumbra Klein. "A resistência aos transgênicos está diminuindo. É só
uma questão de tempo para o milho percorrer o mesmo caminho já traçado
pela soja", afirma o presidente da Odacir Klein.
O 11 levantamento da safra de grãos divulgado pela Companhia
Nacional de Abastecimento (Conab), aponta para uma produção de 58,5
milhões de toneladas de milho ainda não modificado, com área plantada
de 14,7 milhões de hectares. Ao lado da soja, essa cultura já chega a
somar 83% da produção total de grãos colhidos no país, e agora uma
parcela maior desse montante vai chegar ao mercado consumidor com
modificações genéticas.
Fonte: Gazeta Mercantil