De vilã ela passa ao posto de opção saudável na alimentação, podendo até ser incluída nos cardápios de escolas e hospitais
A carne suína está cada vez mais presente na mesa do brasileiro. Nos
últimos 15 anos, o consumo passou de oito para 13,1 quilos por
habitante/ano, um crescimento de 63,75%. Os números parecem
expressivos, mas não é esta a leitura da Associação Brasileira de
Criadores de Suínos (ABCS). A entidade afirma que o mercado consumidor
interno está aquém do que poderia ser. Segundo a ABCS, quase 50% da
população brasileira prefere o sabor da carne suína. No entanto, 36%
consome carne bovina.
A timidez ante aos suínos está aliada a fatores como preconceito,
preço, conveniência, formato e associação com a obesidade. A falta de
informação sobre o poder nutricional da carne suína e como é o processo
produtivo dentro das granjas, ajudaram a criar uma visão errônea do
produto. Mas a ABCS encontrou um modo de reverter o quadro.
Para criar um volume maior de apreciadores, a entidade lançou a
Campanha ''em sete cidades, inclusive Curitiba. O objetivo é
reestruturar a forma como o produto é comercializado no Brasil e acabar
com certos mitos. O plano foi elaborado a partir de uma pesquisa com
consumidores que apontou os hábitos e uma mudança de atitude do cliente
em relação ao produto. Entre os resultados um dado que fez a cadeia
produtiva repensar: o consumidor quer cortes diferenciados.
Um dos entraves, é a apresentação tradicional em peças grandes, como
os pernis de oito quilos focados em Páscoa e festas de fim de ano. A
campanha trouxe para mais perto do brasileiro, cortes já conhecidos e
aprovados como a picanha, strogonoff, medalhão, alcatra, coxão mole,
carne moída premium sem resíduos de gordura, entre outros.
''O brasileiro quer consumir uma carne bem cortada, preparada com
capricho, em porções menores. Estamos trabalhando com frigoríficos
nesta linha e com o consumidor no combate à idéia que a carne faz mal à
saúde'', afirma o diretor do marketing da ABCS, Fernando Barros. Ele
diz que a campanha privilegiou a formatação de dados que contribuissem
para entender melhor os desejos de compra do brasileiro. A revisão dos
cortes nasceu de uma leitura de informações da Associação Brasileira
dos Supermercados (Abras).
Segundo análise da própria Abras, citando o IBGE, a família
brasileira diminuiu de tamanho, passando de 2,4 filhos por família em
1980, para 1,4 filhos, em média, hoje. Ao lado disso, a mulher
conquistou um novo papel na sociedade - trabalha fora, tanto quanto o
marido e não tem tempo de se dedicar à cozinha como antes. Outro fato
importante baliza o comportamento do consumidor: a empregada doméstica
deixou a condição de trabalhadora permanente para transformar-se em
diarista semanal, voltada apenas para o serviço pesado. Assim, os
alimentos da família são comprados semi-prontos ou prontos.
Proteínas são mais digestíveis
Um estudo da professora da Faculdade de Engenharia de Alimentos da
Unicamp (Campinas, SP), Neura Bragagnolo, mostra que carne suína faz
bem à saúde humana e que pode ser incluída em dietas, cardápios de
restaurantes, escolas e até hospitais. Ela afirma que o nível de
colesterol da carne suína é praticamente igual ao da carne de frango e
da carne bovina e, em alguns cortes, sem gordura, o teor é ainda menor.
Por exemplo, o pernil suíno possui 50 mg de colesterol para cada 100
gr de carne, enquanto a carne escura do frango possui 80mg e o coxão
duro de bovino 56 mg. Já o toucinho é o menos perigoso com 56 mg de
colesterol contra 104 mg da pele de frango. ''Com estes dados
desmistificamos que o suíno é um grande vilão da saúde'', comenta a
pesquisadora. Além disso, as proteínas da carne suína são mais
digestíveis (94%) que o feijão (78%) ou que o trigo integral (86%). Com
relação às vitaminas, uma porção de 100gr de carne suína fornece 63%
das necessidades diárias de vitamina B1 em homens e 86% em mulheres,
fornecendo também boa parte das vitaminas B2 e B3, importantes no
crescimento em crianças e no metabolismo, além de redução do risco de
doenças coronárias, entre outros benefícios.
De acordo com dados da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos
(ABCS), dos 13,1 quilos de carne por habitante consumidos no Brasil,
apenas três quilos equivalem à carne fresca. O restante são embutidos,
como presuntos, linguiças e salsichas. Além disso, o consumo total do
País é considerado baixo se comparado com outras regiões. Cerca de 40%
dos humanos consomem este tipo de proteína, segundo a FAO (organização
das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação). Na Áustria, o
consumo é de 73,1 quilos por habitante; na Espanha, 66 quilos; e no
Paraguai, 26 quilos por habitante/ano.
''Trabalhamos orientados por consumidores cada vez mais exigentes. A
Europa acaba de restringir drasticamente a utilização de antibióticos
no processo de criação, ao mesmo tempo em que crescem as considerações
sobre conforto animal. A carne suína brasileira alcança 76 países - por
si só um demonstrativo de que estamos conseguindo acompanhar os
rigorosos padrões estabelecidos pelo mercado internacional'', avalia o
presidente da ABCS, Rubens Valentini.
Fonte: Folha de Londrina